O buddhismo tântrico ou Vajrayāna é a tradição buddhista predominante no Tibet, Nepal, Butão, Mongólia e norte da Índia. Suas práticas enfatizam o uso de visualização, recitação e meditação.O buddhismo tibetano possuiu quatro escolas — Nyingma, Kagyü, Sakya e Gelug. O Vajrayāna também foi influente na China e no Japão através de duas escolas, a Mi-tsung/Shingon e a T'ien-t'ai/Tendai.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Padmasambava - Guru Rinpoche



Padmasambava - Guru Rinpoche
por Chagdud Khadro

O Mahaparinirvana-sutra, escritura sagrada que guarda as palavras que Buda proferiu quando estava prestes a morrer, diz o seguinte:

A impermanência é a natureza de todos os fenômenos criados. Como a morte é inevitável, meu momento de passar para o parinirvana chegou. Vocês não devem entristecer-se. Mil e duzentos anos após a minha morte virá um homem, o Nascido do Lótus, do nordeste de Udiana. Será ele quem propagará o caminho do mantra secreto.

Guru Padmasambava é o mestre que foi fundamental em levar a tradição Vajraiana do budismo para o Tibete. Conhecido como “Senhor Nascido no Lótus” e “Precioso Guru”, ele demonstrou incríveis habilidades espirituais para auxiliar os seres a domarem suas mentes. No século VIII, em um Tibete majestoso, porém turbulento, Padmasambava propagou o caminho do Vajraiana para que os praticantes espirituais pudessem superar as emoções aflitivas, a delusão e a desarmonia.

Os ensinamentos de Guru Padmasambava vêm sendo transmitidos de forma pura por meio de métodos que têm mantido a sua essência. Hoje, eles permanecem tão vivos para os praticantes quanto foram há mil e duzentos anos para os praticantes daquela época.

Os métodos específicos de Guru Padmasambava praticados nos centros do Chagdud Gonpa foram estabelecidos por Chagdud Rinpoche, ele próprio uma encarnação (tulku) de um dos 25 principais discípulos de Padmasambava. Com fé e confiança, os alunos de Rinpoche utilizam o esplendor do Vajraiana para explorar os potenciais da mente e para descobrir a sua natureza pura e original.

Mitologia tibetana






FORMAÇÃO DO BUDISMO TIBETANO



A RELIGIÃO BON
A religião Bon é uma seita de xamanismo anímico, um culto panteísta cuja crença é de que todos os sêres vivos possuem alma. Ela prevalecia no Tibet antes da introdução do Budismo no séc. VII. Depois disto o Budismo Tibetano absorveu algumas crenças e rituais do Bonismo, cmo a dependencia no oráculo, astrologia e panteísmo. Por exemplo, as seleções dos Tulkus (reencarnações) começava com um oráclo, astrologia, observações de visões em lagos sagrados, e algumas vezes os serviços de um oráculo-monje eram requisitados. Por outro lado o Bonismo foi modificado para o modelo Budista para se tornar um ramo do Budismo Tibetano, a seita preta.

Estágios do Bonismo

O Bonismo Original

De acordo com a lenda o Bonismo foi criado por Tenpa Sherab, um contemporâneo de Buda, em um país místico conhecido por 'Tag-gzig', em algum lugar em Ali (Alto Shangshung).

O Bonismo acreditava que no início da criação haviam dois ovos, um branco e outro preto. Os dois ovos quebraram - e do ovo branco sairam os deuses, humanos, etc, e do preto saíram os parasitas, os demônios, etc.

O Bonismo Yungdrung

De acordo com a maioria dos Tibetólogos, o emblema Yungdrung (a suástica nazista que é um emblema Budista) foi introduzido no Tibet juntamente com o Budismo no séc. VII.O Bonism Yungdrung adotou este emblema como sua marca e sistematizou as doutrinas que incluíam o caminho para rezar por boa fortuna, medicina, vitória nas guerras, e como arrajar um ritual aprooriado para um funeral, e ainda métodos de mágica para discernir o verdadeiro do falso, e o culpado do inocente.

O Bonismo Jo

O 5º Rei do Tibet, Khri-srong-de-tsan, da dinastia Tubo difundiu o Budismo no Tibet e era o inimigo público do Bonismo. De acordo com alguns livros, isto foi o que causou o colápso da Dinastia Tubo.

Os Budistas Tibetanos, liderados por Padmasambhava, proclamou as Deidades Bonista como as deidades menores do Budismo, adotou as crenças e rituais Bonistas, e permitiu que se comesse carne.

O Desenvolvimento do Budismo no Tibet




Terraço do Mosteiro de Jokhang (ao fundo Palácio de Potala)
Livros sobre a história do Budismo Tibetano tem registrado a seguinte lenda de como o Budismo se espalhou por terras Tibetanas: Em um certo dia no século V, Lhathothori Nyantzan, regente do Reinado de Tubo, estava descansando no topo do Monte Yungbo Lhakang. De repente ele se deparou com vários Tesouros Budistas caidos do céu. Enquanto o Rei Tubo não tinha a menor idéia do que era aquilo, uma voz misteriosa lhe informou que o 6º Tsampo (Rei) do Reino de Tubo saberia como usar aqueles objetos.

De acordo com as tradições o Budismo chegou a Tibet por volta de 630 sob o reinado de Songtsan Gambo, o Rei Tubo do século VII, que se esforçou para estabelecer laços de amizade com os países vizinhos para fortalecer a economia e aprender culturas avançadas. Neste processo ele se casou com a Princesa Bhrikuti Devi do Nepal e a Princesa Wencheng da Dinastia Tang da China (618-907). Cada Princesa viajou para o Tibet com uma estátua de Buda, e uma vez lá se empenharam para construir os Mosteiros de Jokhang e Ramoge em Lhasa. Artesãos que acompanharam a Princesa se envolveram na construção dos mosteiros, e monges Budistas por sua vez começaram a traduzir as escrituras Budistas. Assim o Budismo se espalhou no Tibet a partir das regiões do Nepal e Han.

O Tibet se viu envolvido por uma luta de poder por mais de meio século resultando a morte de Songtsan Gambo. O Budismo falhou em florecer até que Tride Zhotsan, o bisneto de Songtsan Gambo, tomou o poder. Em 710, Tride Zhotsan pediu a mão e eventualmente se casou com a Princesa Jincheng da Dinastia Tang. A noiva mudou a estátua de Buda que a Princesa Wencheng havia trazido para o Tibet, para o Mosteiro de Jokhang. Enquanto isto, ela arranjou que monges que a acompanharam do Reino de Tubo que assumissem o mosteiro e as atividades religiosas. Ela se empenhou arduamente e finalmente conseguiu persuadir a corte de Tubo a aceitar os monges das regiões do Oeste e construiu vários mosteiros para acolhê-los. A situação se tornou instável com a resistência de seguidores da religião BON que fizeram de tudo (com assassinatos e retaliações) para obstruir a avanço do Budismo até o entronamento de Trisong Detsen, filho de Tride Zhotsan, em 775.

Trisong Detsan se apoiou no Budismo e como parte de seu esforço convidou Santarakshita e Padmasambhava, famosos monges da Índia e Kashmir, para pragar as Leis do Budismo iniciando-se a construção do Mosteiro de Samye em 799. Rasparam a cabeça de sete crianças nobres, e assim este mosteiro se tornou o primeiro mosteiro Tibetano a tosar os monges se tornando uma prática no sistema do Budismo Tibetano.

Trisong Detsen reuniu um número de eminentes mestres Budistas da China e Índia numa reunião importante conhecida com o Conselho de Lhasa e enviou missionários à China para convidar monges a lecionar no Tibet. Mahayana foi um deles e ficou 11 anos no Tibet lecionando sobre Budismo e completando nove Livros sobre o Budismo.

Os reis Tubo das Dinastias seguintes fizeram o máximo para promover o Budismo construindo mosteiros e financiando a tradução de Sutras Budistas. Ao mesmo tempo, eles garantiram aos monges uma receita real e até os encorajou a se envolverem nos assuntos políticos para desencorajar o ministros que apoiavam a religião BON, que em represália arranjaram o assassinato de Tritsong Detsen em 842. E seu irmão Lang Dharma, que reinou de 838 a 842, se tornou o novo Rei Tubo que adotou uma política de supressão do Budismo na região. Ruindo um vasto império e, por mais de 150 anos, revertendo-se barbarismo, desordem e ignorancia, sendo as atividades religiosas, culturais e literárias reduzidas a zero.

No iníco do Século X foi instaurada uma sociedade feudal no Tibet com cada um do ministros Tubo ocupando o território e assumindo o poder. Eles se empenharam em promover o Budismo para fortalecer os seus próprios reinados. E asim o Budismo foi reavivado no Tibet, entretanto o Budismo, na forma e conteúdo, diferia em mutio do Budismo Tubo. A velha luta entre o Budismo e a religião BON resultou que cada uma absorveu os pontos fortes da outra fazendo com que o Budismo emergisse e entrasse em um estágio de rápido desenvolvimento. Mas ainda graças aos esforços de um Rei Guge que se tornou um monge adotando o nome de Yeshe-Ö, "a Luz do Conhecimento", que temendo a dissonância com os ensinamentos ortodoxicos, enviou algumas pessoas para estudar na Índia. Entre elas estava Rinchen Zangpo (958-1055) que se tornou um famoso tradutor dos textos sagrados para o Tibetano e fundador de vários templos e mosteiros. Yeshe-Ö foi também o responsável pelo convite ao Tibet do grande Padita Indiano Atisha (982-1055) que depois de uma série de recusas finalmente chega ao Tibet em 1042, instruindo um grande número de discípulos até a sua morte doze anos depois.

Os ensinamentos de Atisha tinha o objetivo de trazer a seus discípulos uma combinação harmoniosa de disciplina monástica, prática de rituais e desenvolvimento intelectual. E seu melhor discípulo foi Gyalwai Chungne, mais conhecido como Drom Tonpa (1004-1064) fundador do Mosteiro de Reting ao norte de Lhasa.





Mosteiro de Samye




Atisha (982-1055)

AS SEITAS

Depois do século XI o Budismo floreceu com toda força. O Tibet tendo perdido a sua unidade política e força militar, se viu fragmentado em numerosos e pequenos territórios independentes, continuamente lutando entre si, favorecendo assim o crescimento da influência religiosa sobre a população. E foi durante este período que o Budismo Tibetano se diversificou em um número de seitas incluindo a Nyingma, Gatang, Sagya, Gagyu, Zhigyed, Gyoyul, Gyonang, Kodrag and Xalhu. As últimas cinco eram realmente muito fracas lhes faltando um suporte político. Elas foram forçadas a juntar forças ou acabaram sendo anexadas por outras seitas. As seguintes cinco seitas ganharam uma popularidade expressiva:

Nyingma
A Escola Nyingma , a mais antigas das quatro tradições Tibetanas, tem as suas raízes nos ensinamentos do Mestre do Século VIII AD, Padmasambhava, que viajou da Índia para o Tibet. Fundada no século XI é também conhecida como a Seita Vermelha sendo a mais antiga do Budismo Tibetano. Esta seita deu grande atenção para absorver alguns pontos da religião BON, e ao mesmo tempo, se empenhou para procura os sutras Budistas que o rei Dharma havia escondido com o objetivo de suprimir o Budismo. Baseda na prática do Budismo profundamente enraizado no Reinado Tubo do século VIII, a seita se denominou Nyingma que significa anciã ou antiga na lingua Tibetana. Os monges da Seita Nyingma usavam chapéus vermelhos daí sendo chamada de SEITA VERMELHA. Eles advogavam o estudo do Tantrismo.

Gatang
Fundada em 1056, se ocupava com o estudo de ensinamentos exotéricos, com enfase no Tatrismo. Na lingua Tibetana Ga se refere aos ensinamentos de Buda; e tang significa instrução. A combinação Gatang logo se refere em orientar o povo a aceitar o Budismo baseado nos ensinamentos de Buda Suas doutrinas foram promovidas amplamente e exerce uma grande influência em várias outras seitas do Budismo Tibetano.Entretanto com o surgimento da Seita Gelug no século XV, a seita Gatang dissolveu seus monges e mosteiros e se uniu à seita Gelug.

Sakya
Mosteiro Sakya
Sagya significa "terra branca"na lingua Tibetana. A Seita Sakya, fundada em 1703, derivou o seu nome do fato de seu mais famoso mosteiro, o Mosteiro Sakya, ser de cor branca acinzentada. Ao redor dos mosteiros Sakya são pintados com tiras nas cores vermelha, branca e preta, simbolizando respectivamente a Sabedoria de Buda, a Deusa da Compaixão e a mão Adamantina de Buda. Assim a Seita também é conhecida como a Seita das Tiras.


Kagyu
S. S. o 17º Gyalwa Karmapa, Ogyan Drodul Trinley Dorje.
A Escola Kagyu, outra das quatro maiores tradições Tibetanas foi fundada no Século XI AD pelo educador e tradutor Tibetano Marpa. Marpa viajou três vezes sobre os Himalaias para a Índia, onde ele passou duas décadas estudando as escolas do pensamento Indiano. A Escola Kagyu tem se desenvolvido através dos séculos principalmente da linhagem dos KARMAPAS, conhecida como a linhagem Karma Kagyu , que começou com o Karmapa Dusum Khyenpa (1110-1193) e é representado hoje por Sua Santidade o 17º Gyalwa Karmapa, Ogyan Drodul Trinley Dorje.
Fundada no século XI evidencia o estudo do Tantrismo e prega que os princípios Tantricos sejam passados oralmente de geração a geração. Gagyu na lingua Tibetana significa "passada oralmente" . Marba e Milha Riba, os fundadores da Seita Kagyu, usavam mantos brancos quando praticavam o Budismo, daí o nome de Seita Branca. No primordios a Seita Branca era dividida em Xangba Kagyu que se extinguiu no século XIV, e Tabo Kagyu. Esta última era poderosa e se tornou dominante.

Os ensinamentos das Escolas Nyingma e Kagyu são famosos pela riqueza de seus interêsses nos campos da filosofia da mente e a ciência da meditação, e são únicas em suas abordagens pragmática sem aplicar esses campos do conhecimento numa grande variedade de aspectos da vida cotidiana.

Os educadores Nyingma e Kagyu, como Longchenpa e Mipham na tradição Nyingma e cada um dos sucessivos Karmapas na tradição Kagyu, escreveram muitos trabalhos extraordinários. Estes trabalhos literários não só fazem parte da educação tradicional Tibetana como também são relevantes para os educadores contemporâneos de todo o mundo.

Gelug
Guru Rinpoche
Foi a mais famosa seita na história do Budismo Tibetano fundada em 1409 durante a reforma do Budismo iniciada por Tsongkhapa. O próprio Tsongkhapa nasceu numa época quando Pagmo Zhuba restabeleceu o Regime Sakya no poder. Naquela época, a classe superior dos monges se envolveu num luta por poder econômimico e políotico leando uma vida decadente e repidamente foram perdendo a popularidade. Tsongkhapa se esforço para que os Budistas seguissem novamente os princípios de Buda, e começou a fazer viagens dando palestras e escreveu muitos livros pedindo por uma reforma no Budismo. Por exemplo, no primeiro mes de 1409 do calendário Tibetano, Tsongkhapa iniciou a Cerimonia da Grande Convocação no Mosteiro de Jokhang em Lhasa. A cerimonia é praticada até hoje. Ocorreu também a construção do Mosteiro Gandain e a fundação da Seita Gelup que era famosa por sua adesão extrita aos mandamentos. A palavra Gelup significa na língua Tibetana, "mandamentos". Tsongkhapa e seus seguidores usavam um chapéu amarelo, daí o nome de Seita Amarela. Desde a sua fundação, a seita constriu os mosteiros de Zhaibung, Sera, Tashilhungpo, Tare, Labrang, que se juntaram ao mosteiro de Gandain Monastery para forma os seris maiores mosteiros da Seita Gelug. A Seita Amarela é também conhecida pela formação dos dois maiores sistema de reencarnação dos Budas Vivos - O Dalai e o Panchen

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Budismo tibetano



O Budismo se espalhou no Tibet no século VII durante a época aurea de vigor e expansão de seu reinado e gradualmene se infiltrou na história, na política, economia, cultura hábitos e costumes do Tibet, para se tornar a religião mais praticada pelos Tibetanos. O Budismo havia se originado a mais de mil anos na fronteira entre Índia e Nepal, a partir das palavras do Asceta Gautama, um nobre de nascimento, a quem seus seguidores chamavam de Buda, "O Iluminado", e também de Sakyamuni, "pertencente à Clan Sakya" (provavelmente 563-480 A.C.) Seus ensinamentos continham as chamadas "Quatro Verdades Nobres"

1. que o sofrimento (dukkha) era uma parte inevitável da vida; e são eles:

* trauma de nascimento

* doença

* velhice

* medo da aproximação da morte

* ficar separados de quem amamos

* ficar atado ao que odiamos

2. que o sofrimento se origina do desejo (tanha);

3. que a cura para o sofrimento é a remoção do desejo;

4. e que a superação do desejo, e consequentemente do sofrimento, se torna possível seguir o "Caminho das Oito Virtudes" :

Compreensão correta (livre da superstição e desilusão,

através da compreensão das Quatro Verdades Nobres)

Pensamento correto (elevados e úteis da inteligencia humana,

para por a vida num caminho correto)

Fala correta (gentil e verdadeira. Que consiste em:

* Não mentir

* Não criticar os outros injustamente

* Não usar linguagem grosseira

* Não comentar sobre a vida alheia)

Ações corretas (pacíficas, honestas e puras, seguindo os "Cinco Preceitos")

Os Cinco Preceitos:

1. Não matar

2. Não roubar

3. Não mentir

4. Não ser desonesto

5. Não tomar drogas ou beber intoxicantes

Vida correta (não trazendo injúria ou perigo para qualquer ser vivo)

Esforço correto (em auto-treinamento e auto-controle, através da:

* conquista dos pensamentos maléficos

* esforço para se manter os bons pensamentos)

Comprometimento correto (tendo uma mente ativa e alerta)

Concentração correta (em meditação profunda das realidades da

vida, se tornando inteiramente consciente de todos os estados corporais, emocionais e mentais)


quarta-feira, 3 de junho de 2009

Deus no Budismo

Abordaremos, a seguir, um dos temas mais abstratos do Budismo: o conceito de Deus. Seria o Budismo ateu ou, quem sabe, agnóstico? Tentaremos ser claros, simples e sucintos, pois a questão envolve uma filosofia à primeira vista complexa e profunda e, por isso mesmo, tão mal compreendida entre os não iniciados.

Acusa-se, freqüentemente, o Budismo de desconhecer a existência de Deus, ou de, no mínimo, não encarar de frente um assunto tão transcendental. Afinal, todas as religiões têm seu Deus: Allah no Islamismo, o Deus do Cristianismo, Jeová no Judaísmo, Brahma no Brahmanismo e assim por diante. E o Budismo, como considera a realidade de um Ser Supremo que regeria a vida, o destino e daria sentido ao Universo? Ou simplesmente se omitiria, conforme crença tão difundida?

Para responder essas perguntas, precisamos ter uma noção do que seja a Vacuidade (Sunyata), um dos pilares básicos do Budismo em todas suas manifestações. Um dos mais famosos Sutras (compêndios com os sermões de Buddha), o Mahaprajnaparamita-Hridaya, diz que a Vacuidade, ou o Vazio, é o fundamento que dá base à existência de todas as coisas, em sua assertiva tão conhecida: "A Forma é o Vazio, o Vazio é a Forma". O Vazio parece servir de fundamento à natureza não-substancial de todos os fenômenos. Mas o que vem a ser o Vazio? É a constatação de que todas as coisas compostas são vazias e impermanentes, impessoais e dolorosas. Isto vale, também, para nós, seres humanos. A Vacuidade, no ramo Hinayana, aplica-se apenas à "pessoa". No Mahayana, que inclui o Zen-Budismo, estende-se a tudo o que existe no mundo fenomênico. Este é sempre fugaz, como o é o Universo como um todo. Nada do que existe tem uma natureza perene e estável. Do Vazio origina-se e brota, a cada instante, todo o mundo à nossa volta, como as partículas virtuais e as anti-partículas também brotam a cada momento, para, logo a seguir, desaparecerem no vácuo do espaço cósmico. A Iluminação (Bodhi ou Satori), a suprema experiência budista, acontece quando tomamos conhecimento íntimo e súbito, em um insight, dessa noção de vazio, não-perenidade e, simultaneamente, de unicidade. Nela, o homem acorda para a Vacuidade de si mesmo e do Cosmos, vivendo o inacessível, o além do ser e do não-ser, onde o Absoluto e o Relativo não são senão um só fenômeno, intimamente coerente e uno. O temporal e o efêmero são características intrínsecas ao Universo, sob o contraponto necessário do Supremo, que, dialeticamente, lhes dá sentido e coerência. A noção completa de Vacuidade foi herdada pelo Zen-Budismo, em parte, a partir do Taoísmo e seu princípio do Nada (Wu).

Um conceito budista similar ao conceito de Deus existe e é bem expresso, por exemplo, pela idéia de Bhutatathata (a qüididade do ser, "suchness", em inglês). Bhutatathata é tão somente um princípio que remete a algo abstrato, inominável, impessoal, indizível e inefável, magistralmente traduzido pela idéia-chave da Vacuidade. Trata-se da Realidade Última, manifesta no mundo fenomênico, com suas aparências e formas que nascem, transmutam-se e desaparecem. Bhutathata é impessoal, imutável e eterno. É um conceito muito forte e real (aliás, a realidade final de tudo), não propriamente uma personificação expressa. É o Absoluto ou a Realidade Suprema (Tathata). No grande ramo budista Mahayana, equivaleria, aproximadamente, à mais avançada idéia cristã de Deus. Na Escola Madhyamika, o Vazio é idêntico ao Absoluto, o Princípio Último. Realizar o Vazio é atingir a libertação purificadora, a Iluminação. O Maha-Sunyata Sutra é um sermão de Buddha a respeito da Vacuidade.

Em suma, o mundo dos fenômenos e das aparências, o "nosso mundo", confunde-se intimamente com a idéia filosoficamente necessária do Absoluto, como se fossem as duas faces de uma mesma moeda. O Budismo nunca usou expressamente uma denominação para Deus. Mas o conceito de um Supremo existe. O célebre filósofo budista Nagarjuna, em "As Oito Negações", afirmou: "nem destruição nem criação; nem aniquilamento nem eternidade; nem unidade nem multiplicidade; nem chegada nem partida". A síntese entre a Vacuidade e o mundo fenomênico é, pois, o verdadeiro Caminho. Bhutatathata é o Princípio imutável e eterno.

O Budismo não é uma doutrina nihilista ou, como se julga, panteísta O Absoluto não está em tudo. Ele é tudo, manifestado através da multiplicidade das aparências enganosas, efêmeras e passageiras. O Buddha Shakyamuni disse certa vez: "Sois Buddha e não sabeis". Com isso quis significar que a Iluminação é acessível a todos. E mais: que temos, dentro de nós, uma grandeza que desconhecemos e raramente utilizamos. Buddha pouco se referiu à idéia de um Deus, expressamente falando, talvez por julgá-la excessivamente transcendental para nós, embora, de certa maneira, tão próxima. Mas deixou as pistas, mesmo porque a noção do divino é arquetipicamente intrínseca a todos nós humanos e, principalmente, porque mais vale a compreensão pela própria prática e experiência do que mil palavras, por mais sábias que sejam.

De maneira diferente da maioria das religiões (sem julgamento de mérito), o Budismo não cria um Deus a priori. Ele trabalha filosoficamente a nossa realidade e a une indissoluvelmente à Realidade Última dos Fenômenos e conclui que sem esta não haveria explicação e fundamento para a primeira. Na realidade, o Supremo manifesta-se pelo mundo dos fenômenos, por mais efêmeros, mutáveis, sem substância e vazios que sejam ou que aparentem ser.



*André Medeiros é Astrônomo e estudioso de Budismo desde 1990, na Escola Sotô de Zen-Budismo






Deus no Budismo
Janeiro 17, 2009 in Budismo, Budismo Tibetano

O Buda, muito longe de negar que havia um Absoluto, garantiu que aqueles que alcançassem a iluminação deveriam se fundir com Isso e assim perceber a Realidade em oposição ao mundo das ilusões e dos fenômenos. O que ele realmente disse, contudo, que tem levado pessoas a acusarem-no de ateísmo, é que não temos nenhum meio de expressar qualquer coisa sobre Isso. Palavras pertencem ao universo dos fenômenos e são aplicáveis apenas à ele. Quando alguém vai além dos fenômenos, em direção à Realidade, palavras precisam obrigatoriamente ser deixadas para trás. Nenhum ensinamento, nenhuma descrição, nenhum pensamento podem expressar o Absoluto — mas podemos experimentá-lo, se suficientemente evoluídos.

O que Buda combateu foram as numerosas tentativas que foram feitas, estão sendo feitas e continuarão a ser feitas, de dizer que o Absoluto é isso ou aquilo, um Deus pessoal, um Criador, um Deus-Pai. Ele insistentemente recusou responder qualquer pergunta sobre o assunto porque isso era inexprimível em palavras. Ele não iria permitir a seus discípulos imaginar um Absoluto a semelhança deles, como é a tendência do homem em todo lugar. Ele assinalou sutilmente que é melhor se ajustar para tentar alcançar a iluminação e, assim, experimentar o Absoluto por si próprio, em vez de perder tempo tentando ineficazmente falar sobre isso, já que nada que possa ser dito sobre Isso pode ser verdade em absoluto. Palavras iriam inevitavelmente modificá-Lo e moldá-Lo, resultando no máximo em uma aproximação grosseira. Palavras podem ser verdadeiras apenas em certo nível, mas apenas nesse nível, portanto serão apenas verdades relativas. Assim, como um entendimento que só funciona por meio de palavras pode conter o que não pode ser colocado em palavras? Apenas pela experiência direta.

Se esse fato tivesse sido assimilado, às custas do orgulho humano, teria havido muito menos intolerância, violência e sofrimento cometidos em nome da religião, entre os vários adeptos de seus seus próprios credos; todos afirmando de maneira confiante e dogmática que somente eles receberam a Verdade e que todos os outros estão errados e devem ser salvos de sua ignorância voluntária.

…

Então, se não há nenhum Deus no sentido de um Deus pessoal — ou se for compreendido que conceitos de um Deus pessoal, um Criador ou um Deus-Pai, são apenas relativamente verdadeiros e adequados apenas a alguns estágios do desenvolvimento humano — porque há tantas referências aos “deuses” [no budismo tibetano], sugerindo toda uma hierarquia?

A palavra páli “deva” é traduzida como “deus”, mas na verdade significa “espírito”, um ser de um reino superior que, no budismo, pode influenciar seres humanos, ajudar e protegê-los. A Terra não é o único mundo de seres da cosmologia budista. Há incontáveis universos em diferentes planos de existência, isto é, em diferentes estágios de desenvolvimento (espiritual). Alguns são mais elevados que nós (que somos a maioria). Alguns são inferiores. Há muitas referências a seres humanos renascendo em reinos superiores ou inferiores.

Mas, no budismo, não há lugar para a hierarquia massiva da religião Hindu, que acrescentou o próprio Buda a essa hierarquia (até os cristãos fizeram Dele um dos seus santos), nem para a Trindade de Criador, Preservador e Destruidor, nada exceto um Absoluto inexprimível. Em Sua direção as pessoas estão evoluindo ou involuindo, alguns se tornando espíritos de planos superiores, outros afundando em mundos inferiores. E todos pertencem ao mundo dos fenômenos, não à Realidade. Apenas o Absoluto é Real. E nem podemos realmente dizer isso sem declarar algo menor que a Verdade. Mas Ela está lá para ser realizada por alguém com o desejo e determinação como os de Milarepa.

…

Todo ser humano, todo ser, é um Buda em potencial. Depende de cada um realizar sua própria Natureza Búdica.

Lobzang Jivaka em “The Life of Milarepa”. Fonte: Samsara

terça-feira, 26 de maio de 2009

Budismo e Ciência



segue o link
http://www.youtube.com/watch?v=SN-stPHLQ2g&feature=related

sexta-feira, 22 de maio de 2009



As mandalas simbolizam iconograficamente as virtudes da iluminação. Em um esquema tradicional, os cinco dhyani-buddhas são representados: Vairochana no centro, Amoghasiddhi na direita (norte), Ratnasambhava na esquerda (sul), Akshobhya embaixo (leste) e Amitabha em cima (oeste). Estas posições também foram utilizadas, por exemplo, na construção da stupa de Borobudur (Indonésia), mas podem variar de acordo com a divindade representada. Outros significados mais profundos sobre as mandalas devem ser ensinados apenas por professores qualificados da tradição Vajrayana.

[A] mandala representa a auto-identificação do microcosmo (a pessoa humana) com o macrocosmo que, para uma pessoa não-iluminada, possui a natureza do samsara; reciprocamente, ela se revela como a expressão perfeita da iluminação quando todas as diferenciações errôneas desaparecem no estado iluminado da não-dualidade.
(David Snellgrove, Indo-Tibetan Buddhism)

http://www.dharmanet.com.br/vajrayana/mandala.htm

A Roda da Vida




A Roda da Vida (sânsc. Bhavachakra), também conhecida com a Roda da Existência, Roda do Devir e do Vir-a-ser, foi criada pela extinta escola Sarvastivada, precursora do buddhismo Mahayana. Este diagrama geralmente é encontrado nas portas de entrada dos monastérios tibetanos. Suas ilustrações representam simbolicamente a os doze elos da existência interdependente, os seis reinos da existência cíclica e os três venenos da mente. Segundo a tradição, a Roda da Vida foi desenhada pela primeira vez na época do Buddha Shakyamuni. Depois de pedir um conselho ao Buddha, o diagrama teria sido desenhado por ordem do rei Bimbisara de Magadha. Ele o enviou ao rei Udayana em retribuição a um manto de jóias preciosas que tinha recebido de presente. O rei Udayana teria atingido uma profunda realização espiritual após estudar este diagrama.

A assustadora figura que segura a roda é Yama, o demônio da morte da mitologia indiana. Aqui, sua terrível presença simboliza a impermanência; nenhum ser vivo pode escapar de suas garras. Entretanto, o Buddha está flutuando no céu e apontando para a lua cheia; isto representa que os seus ensinamentos apontam o caminho para a liberação.

A maioria das pessoas vive negando a morte; praticantes [buddhistas] vivem com a constante consciência de sua existência. A morte, para eles, é uma poderosa diretriz para encontrar o significado essencial da vida. Na prática Vajrayana tibetana, os símbolos da morte — copas de crânio, tambores de crânio, trombetas de fêmur, malas [rosários] de osso, dançarinos em indumentárias que simbolizam esqueletos — nos relembram nitidamente de sua proximidade.
A utilização de tais implementos durante os rituais não quer dizer que os praticantes Vajrayana sejam insensíveis à morte, ou que não se aflijam com a morte de familiares e amigos, porém o cheiro e a textura de ossos envelhecidos, por exemplo, evocam o pensamento: "Sim, eu também terminarei como ossos espalhados ou cinzas num cemitério. Possa eu usar bem este corpo e não desperdiçar o tempo que me resta".

(Chagdud Khadro, Práticas Preliminares do Budismo Vajrayana)


Na borda da roda, doze ilustrações representam os elos da existência condicionada:

Uma velha mulher cega, andando com uma bengala, representa a ignorância;
Um oleiro fazendo um pote representa a vontade;
Um macaco pulando de galho em galho representa a consciência;
Um barco com duas pessoas representa o nome e forma;
Uma casa com seis janelas representa o conjunto dos seis sentidos;
Um casal se abraçando representa o contato;
Um homem dramaticamente ferido por uma flecha no olho representa a sensação;
Um homem tomando bebida alcoólica representa o desejo;
Um homem ou um macaco agarrando uma fruta em uma árvore representa o apego;
Uma mulher grávida representa a existência;
Uma mulher dando à luz representa o nascimento;
Uma pessoa carregando um cadáver representa o envelhecimento e morte.
A parte principal da roda é dividida em seis partes, representando os seis reinos da existência cíclica (sânsc. samsara). Na parte de baixo, estão os três reinos inferiores:

seres dos infernos (sânsc. naraka, nairayika);

fantasmas famintos (ou espíritos carentes, sânsc. preta);

animais (sânsc. tiryak, tiryagyona).

Na parte de cima, estão os três reinos superiores:

deuses (sânsc. deva);

semideuses (ou antideuses, deuses invejosos, demônios covardes, titãs, sânsc. asura);

humanos (sânsc. manushya).

Em cada reino há um buddha: Yama Dharmaraja no reino dos infernos; Jvalamukha no reino dos fantasmas famintos; Simha no reino dos animais; Indra no reino dos deuses; Vemachitra no reino dos semideuses; e Shakyamuni no reino dos seres humanos.

Em alguns sistemas, o reino dos semideuses também é considerado um reino inferior, tornando-se um dos "quatro estados miseráveis" (infernos, fantasmas famintos, animais e semideuses). Em outros sistemas, contam-se apenas cinco reinos (infernos, fantasmas famintos, animais, humanos e deuses), sendo que os semideuses são divididos entre o reino dos fantasmas famintos e o dos deuses.

Existem seis reinos onde nós podemos ter renascimento, um deles é o reino humano. Cada reino tem um âmbito de experiência específico, ainda assim podemos vivenciar em corpo humano — embora com muito menos intensidade — as experiências dos seis reinos. Por exemplo, o reino dos infernos é vivido por nós através da experiência de que todas as pessoas que nos cercam são ruins, o filho, o marido, o chefe... Para todo lado que olhamos as coisas são difíceis e só há sofrimento. Através da raiva e da aversão nos conectamos com esse reino. No reino dos seres famintos há uma experiência de carência incessante, eles têm sempre muito pouco diante do que sentem que necessitam. Nos conectamos a essa experiência através da avareza e aquisitividade. Assim como nos infernos, esses seres também não praticam. Os seres nos infernos dizem: "estou sofrendo, tudo é horrível, como eu vou praticar?" Os seres famintos dizem "eu preciso disso e disso, como posso praticar?". Depois há o reino dos animais, eles não praticam porque tão logo eles estejam com suas necessidades satisfeitas, de barriga cheia, dormem. Assim, também não ouvem o Dharma.

Entre os reinos superiores, há os deuses. Não é o reino de Deus, mas dos deuses. No reino humano isso corresponde àqueles que andam de carro importado, jatinho, não tem problemas de dinheiro, desfrutam de todas felicidades do mundo material. Os deuses tem corpos específicos sutis, se deslocam no espaço e produzem benefícios para os seres humanos em dificuldades. O problema é que são benefícios condicionados, e não do tipo que produz liberação. Esse reino é o que os seres humanos buscam em seus sonhos, é a sua perdição... Vivemos almejando chegar lá, trabalhando para isso, ou sonhando com isso. Nos conectamos com esse reino através do orgulho.

Já os semi-deuses têm poder, mas são competitivos e invejosos; passam o tempo todo combatendo. A conexão se dá através da inveja. Os deuses não praticam porque estão imersos em facilidades e felicidades, então, por quê praticar? Os semi-deuses, como estão sempre guerreando, também não têm tempo para praticar.

(Padma Samten, Prática na Vida Cotidiana)

Não é um processo que necessariamente precise ser monitorado. As ações se desenrolam do seu próprio modo, sem que ninguém controle o resultado. Não é como se alguém tivesse que contabilizar tudo para que cada qual fosse parar no reino certo, etc. As ações de cada ser determinam as experiências futuras desse ser. [...]

A idéia de que podemos vivenciar estes reinos de sofrimento que chamamos de infernos deixa muitas pessoas céticas ou enraivecidas. Elas não acreditam em inferno; pensam que este conceito não passa de uma tática que algumas religiões empregam para assustar e controlar as pessoas. Em certo sentido, é verdade que o inferno não existe. Se fizermos uso de toda a tecnologia do mundo para tentar chegar ao centro da Terra, nunca acharemos o inferno. No entanto, muitos seres estão sofrendo no reino dos infernos neste exato momento.

O inferno é o fluxo dos enganos e fantasias da mente, dos pensamentos e interações raivosos, e das palavras e ações nocivas que eles produzem. Se não forem controlados, não há como deixarmos de vivenciar o inferno. [...] Algumas pessoas experimentam o inferno mesmo enquanto contam com um corpo humano. Muitas delas ocupam nossos hospitais. [...] Poderíamos estar sentados no mesmo quarto que elas, e não enxergar nada do que sofrem. Ao mesmo tempo, podemos estar bem ao lado de um grande meditador que vivencia o céu, a terra pura, sem que nós mesmos enxerguemos isso. [...]

Embora grandes meditadores consigam vislumbrar outros reinos, nós não temos prova absoluta sequer de que o nosso mundo fenomênico humano exista além das nossas mentes individuais e coletivas. Ainda assim, da mesma forma que tomamos nossos sonhos como reais enquanto estamos dormindo, consideramos real o nosso reino humano. E os cinco outros reinos são tão reais para os seres que neles existem quanto a nossa experiência é para nós. O inferno parece tão real para um ser no inferno, o reino dos fantasmas famintos tão real para um fantasma faminto, quanto o reino humano para nós. Em última análise, o sofrimento provém não dos fenômenos desses reinos, mas do fato dos seres conferirem realidade a eles.

Assim, não é contraditório dizer que nossa experiência é real ou verdadeira, e ao mesmo tempo falsa. Nem é contraditório dizer o mesmo de qualquer outro reino. Se insistimos que o reino humano é real, então todos os demais reinos são reais, porque os seres que neles existem os experimentam como reais. [...]

Quando tomamos consciência do sofrimento e das limitações da existência cíclica, passamos a ter motivação para encontrar uma saída, da mesma forma que, quando nos damos conta de que estamos doentes, buscamos algum remédio. Ao compreender que a virtude e a não-virtude determinam se a nossa experiência será de felicidade ou tristeza, prazer ou dor, cabe-nos uma escolha: podemos mudar nossas ações e cultivar qualidades virtuosas, buscando a liberação para nós mesmos e para os outros seres, ou podemos continuar a criar não-virtude, perpetuando sofrimento sem fim.

(Chagdud Tulku Rinpoche, Portões da Prática Budista)

No centro da roda há três animais que representam os três venenos (sânsc. klesha) da mente, a origem dos seis reinos e dos doze elos: o desejo (apego) é representado por um galo; o ódio (aversão) é representado por uma serpente; e a ignorância (conhecimento errôneo), a fonte dos outros dois venenos, é representada por um porco ou javali. O galo e a serpente geralmente aparecem saindo da boca do corpo, indicando que o apego e a aversão surgem da ignorância. Ao transcendermos estes três venenos, podemos nos libertar do sofrimento dos seis reinos e extinguir os doze elos que nos prendem a ele.

Ao redor do círculo com estes três animais, há dois semicírculos que representam a virtude e a não-virtude. O semicírculo negro representa o karma negativo, que conduz aos reinos inferiores. O semicírculo branco representa o karma positivo, que conduz aos reinos superiores.

Observando a roda da vida, é possível contemplar os quatro pensamentos que transformam a mente: a preciosidade do nascimento humano, a impermanência, o karma e o sofrimento. Esta contemplação é muito eficaz para despertar a compaixão, o amor, a alegria e a equanimidade.

Os humanos têm maior vantagem. As nossas felicidades e sofrimentos não são tão duradouras. E quando cruzamos de uma felicidade para uma infelicidade, buscamos os ensinamentos. Isso é a vida humana comum. Ainda assim ela é muito rara. Se comparamos a nossa vida com outros seres, eles são muito mais numerosos. O corpo humano é raro e improvável. Como nós somos geridos pelo karma, o nosso renascimento é construído pela nossa condição kármica. Nós não conseguimos dirigir esse processo. É como a tartaruga cega, que a cada cem anos vêm à superfície do oceano, de águas revoltas, onde há um aro boiando. O renascimento humano é tão improvável quanto esta tartaruga, justamente no momento em que sobe à superfície, conseguir colocar sua cabeça dentro do aro que estava boiando.

A nossa condição humana hoje é favorável. Os seres humanos têm a possibilidade de praticar. Temos a liberdade de olhar nossos impulsos e perceber aspectos mais sutis. Temos tempo livre. Isso significa méritos. Já a "vida humana preciosa" tem características peculiares que transcendem em muito a vida humana típica.

Quando vivemos em épocas em que os seres de luz não se manifestam, nos sentimos perdidos e a vida parece sem sentido. Na época atual os seres de sabedoria vieram; vieram e deram ensinamentos que foram guardados e transmitidos. Esses ensinamentos chegaram até nós e estamos numa região onde esses ensinamentos existem. Além disso, temos sensibilidade para ouvi-los. Dizem que há uma vida humana preciosa quando, além desses fatores, estamos engajados em transformar a nossa vida a partir dos ensinamentos dos seres de sabedoria. Se estivéssemos sob domínio de seres negativos, ou se tivéssemos um modo de ação incorreta, não conseguiríamos ouvir os ensinamentos. Se não estamos sob essas condições, isso completa as características da vida humana preciosa. Se a vida humana é numerosa como as estrelas no céu noturno, a vida humana preciosa é tão rara quanto estrelas que são vistas no céu diurno. A pessoa está engajada em produzir benefícios para todos os seres.

O segundo pensamento é sobre a impermanência. Todas as coisas são impermanentes. Nós estamos sempre buscando o que é estável, mas nos enganamos. Onde estão os meus amigos "inseparáveis" da escola? A gente nem sabe onde eles estão hoje. Onde está a casa da nossa infância? A nossa mãe, pai, irmãos? O primeiro namorado, que foi maravilhoso, mas sumiu. A nossa experiência é de instabilidade e transformação constantes. Se diz no buddhismo que o planeta Terra vai desaparecer. O que dizer então das nossas pequenezas? Estamos aqui por um curto espaço. Esse ensinamento vem para aprendermos a olhar com o olho correto à cada momento. O olho incorreto é pensar que tudo é estável. Quando entendemos a preciosidade da nossa vida, e a usamos para produzir benefícios aos outros seres, este é o sinal de que os ensinamentos produziram as transformações que buscávamos.

A seguir, o karma. Estamos sujeitos a impulsos internos com os quais não podemos lidar. Esses impulsos produzem as dez ações não-virtuosas ou as correspondentes dez ações virtuosas. As ações virtuosas vão produzir experiências favoráveis — isso também é karma, karma favorável ou positivo, mérito. São experiências de felicidade condicionada.

O karma se manifesta em quatro níveis: imediato, a curto, médio e longo prazo. Por exemplo, se desejamos que alguém morra, naquele exato instante estamos esquecidos da nossa condição búddhica, luminosa, perfeita, e isso já é sofrimento. O de curto alcance, é que de novo e de novo vemos a morte de alguém como solução para nossos problemas. O de médio alcance vai se prolongar por essa vida e por outras: a pessoa não se sente digna, sente-se impura por dentro, inferior, e tem uma marca de aversão pelos outros.

Pior que pensar é planejar como fazer. Aí a perturbação se intensifica. A pessoa vai ter sentimentos mais perturbadores, pode começar a ter pesadelos. Se fez isso e executou, a experiência que é muito intensa, vai haver uma intranqüilidade muito grande. E se o ser morreu, é pior ainda. Ela vai se sentir perseguida. Por um longo tempo vai sofrer. Então temos essas quatro etapas kármicas que acompanham cada ação.

Nós temos uma multiplicidade de possibilidades tanto positivas quanto negativas. Tanto uma quanto outra são condicionadas, podem flutuar, estamos sempre pulando de um ponto para outro. Estamos presos nisso, é automático. Esses impulsos estão a nosso serviço, mas quando eles começam a andar por si, são karma. Temos vários mecanismos condicionados, o nosso cabelo cresce, as unhas crescem, sem que a gente faça alguma coisa. E por causa do karma surge a etapa seguinte, o quarto pensamento, que é o sofrimento. Sempre que operamos com referenciais duais, o sofrimento é inevitável. Aí surge o pensamento final que é: eu gostaria de me liberar disso, revelar minha natureza luminosa, usar de forma positiva as relações que estou vivendo, beneficiar os seres.

Em meio às confusões do mundo e tendências kármicas, toda vitória que podemos ter é como vitória no campo de futebol, frágil, impermanente. Agora mudamos, queremos descobrir a nossa natureza completa. Quando olhamos na vida, a nossa vontade de mudar é testada várias vezes, isso é prática espiritual. Aí nossa paisagem ao redor se transforma de samsara, lugar de sofrimento e enganos, em terra pura, que é onde praticamos, recebemos ensinamentos e nos sentimos protegidos pelos seres de sabedoria.

Os buddhas olham o que chamamos de samsara e vêem a perfeição que ali existe. Somos como formigas num palácio, não conseguimos reconhecê-lo com nossos olhos de formiga. Há, então, uma longa etapa de transformação dos nossos olhos, até que possamos reconhecê-lo. Em geral, não conseguimos perceber o valor do benefício real que estamos recebendo.

Paralelamente ao processo de transformação das tendências kármicas, o Buddha ensinou a prática ininterrupta das "quatro qualidades incomensuráveis", que são o método positivo de manifestação no cotidiano solucionando as confusões e conflitos.

A primeira é a compaixão, o desejo que os seres realizem sua natureza interna e se livrem de suas complicações. Essencialmente é o desejo que o outro supere suas dificuldades e possa melhorar. Atenção: compaixão é diferente de "pena". Quando temos pena, estamos validando a imagem que a pessoa faz de si mesmo, e justamente por isso ela está mal. Compaixão é reconhecer no outro a sua natureza estável, perfeita, de luz, sua condição verdadeira, quebrando o encanto dos jogos que estão produzindo as complicações. A segunda é o amor, o desejo que o outro seja feliz, completamente. Não exclui ex-maridos, ex-esposas, ex-sócios... Depois a alegria, a capacidade de se alegrar com as alegrias e vitórias dos outros, pequenas ou grandes. É um poderoso antídoto contra a inveja. Finalmente a equanimidade: perceber as flutuações das alegrias e tristezas da vida; num momento se tem uma grande alegria, em outro aquilo mesmo vira uma grande tristeza. Surge uma serenidade estável frente a essas flutuações e uma fé permanente, inabalável na natureza de todos os Buddhas, que é a sua própria natureza.

O Buddha ensinou também os meios de produzir felicidade nas relações humanas: casamento, namoro, filhos, trabalho, estudo. Em primeiro lugar, ao invés de pensar "o quê vou obter do outro", pensar "o que posso oferecer". Alegrar-se em oferecer! Se estamos na dependência do comportamento do outro para obter felicidade, eventualmente pode até funcionar, mas quando surgir a impermanência e o outro flutuar, entramos em crise. S.S. o 14º Dalai Lama, prêmio Nobel da Paz, sempre brinca, "que tipo de amor é o de vocês, aquele que só existe se o outro sorrir?" Esse tipo de amor está baseado em quanto estamos recebendo e, por isso, é frágil.

Praticando assim, podemos usar a vida cotidiana como caminho espiritual, superando os conflitos internos e trazendo benefícios a todos os seres. Alegria!

(Padma Samten, Prática na Vida Cotidiana)

Sutra do Coração

...a forma é vacuidade, a vacuidade é a forma. A forma não é outra senão a vacuidade, a vacuidade não é outra senão a forma. As sensações, percepções, vontade e consciência também são assim...